Steven Rodríguez viajou mais de 40 milhas de sua casa em Santa Ana, no oeste de El Salvador, para participar da marcha do Orgulho na capital em 28 de junho. É a segunda vez que ele participa. Lá, cerca de 20.000 pessoas se reuniram em uma mistura de celebração e protesto pelos direitos da diversidade sexual. Mas este ano, a alegria foi substituída pelo medo.
“Talvez não vá escalar, mas há um medo de que o que aconteceu com a cooperativa El Bosque aconteça. Mas, de dentro, acredito que, como pessoas, temos o direito a uma vida digna. Se não sou eu, quem mais vai defender minhas experiências?”, diz Rodríguez sobre sua decisão de participar em meio à escalada autoritária que o país está enfrentando.
Quando Nayib Bukele assumiu o poder em 2019, uma das suas primeiras ações foi eliminar a Direção de Diversidade Sexual. Em fevereiro de 2024, durante sua participação na Conferência de Ação Política Conservadora nos EUA, ele deixou claro sua posição: “Não permitimos essas ideologias nas escolas e faculdades. Acredito que também é importante que o currículo não inclua ideologia de gênero e essas coisas.”
O principal medo de Rodríguez é que a marcha sirva como uma desculpa para criminalizar seus participantes. No início deste ano, em 12 de maio, cem membros da cooperativa El Bosque realizaram um protesto pacífico para evitar serem despejados. Isso foi reprimido pela polícia militar e terminou com a prisão do líder comunitário José Ángel Pérez e do advogado Alejandro Henríquez por desordem pública. Ambos estão em detenção provisória em um centro penal. Nos últimos quatro meses, pelo menos seis defensores de direitos humanos foram presos no país por razões políticas.
Na tarde de 28 de junho, a marcha terminou pacificamente e, pelo menos no local, nenhuma prisão foi registrada.
Rodríguez faz parte de um coletivo chamado Pedrina, que foca na articulação comunitária para os direitos LGBTIQ+ no Oeste. Sua abordagem à segurança digital começou quando membros da organização começaram a receber insultos, ameaças e mensagens de ódio nas redes sociais.
Rodríguez e seu coletivo receberam treinamento em segurança digital da Amate, outra organização LGBTIQ+ que defende a causa nacionalmente. Desde maio, a Amate treinou 60 pessoas em questões como direitos digitais, análise de riscos, extorsão, phishing, ‘outing’, vigilância e pornografia de vingança. Inclui também a implementação de ferramentas como o uso de VPN e plataformas de mensagens criptografadas, como Signal e Proton.
“Algo que os ativistas nos disseram [que] é muito comum é que as pessoas pegam suas fotos do Facebook e se passam por elas nas redes sociais, seja para atacar outros coletivos ou para minar aspectos pessoais. Então é uma experiência muito interessante. As pessoas não têm consciência da exposição que temos no mundo digital”, diz Fernando Paz, que é responsável por ensinar esses cursos.
Para Rodríguez, esses ferramentas são uma forma de enfrentar um país que, com o apoio do governo, está se tornando cada vez mais violento em relação aos que representam a diversidade.
“Na universidade, tivemos experiências de discursos de ódio nas aulas. Professores disseram que compartilham o pensamento de Bukele sobre a ideologia de gênero e que isso deve desaparecer porque envenena a juventude”, diz Rodríguez.
Uma maneira que o governo usou para esconder a violência contra a comunidade LGBTIQ+ é a falta de contabilização dos crimes de ódio cometidos em El Salvador. Nos últimos anos, o Ministério Público do país, também conhecido como FGR, utilizou as categorias “homicídio por intolerância social” e “homicídio por intolerância familiar” para contar homicídios que não pode atribuir ao que chama de “crime geral” (principalmente, segundo a narrativa do governo, perpetrado por gangues). Não há clareza sobre o que se enquadra nessas categorias, que não são oficiais, não são definidas e são usadas publicamente apenas – não em relatórios administrativos. Entre 2023 e 2024, a FGR contou 182 desses casos.
Diante da obscuridade estatística, o exercício de documentar e arquivar crimes de ódio tem sido assumido por organizações. O Serviço Social Passionista, um grupo anti-violência, encontrou que 154 pessoas LGBTIQ+ foram detidas durante o regime de emergência de El Salvador, que começou em março de 2022 e foi extendido 39 vezes até o momento. Após isso, Nicola Chávez e sua equipe viram a necessidade de registrar casos de violência contra membros da população LGBTIQ+.
“Sempre tivemos a intenção de iniciar um observatório, mas com o início do regime de exceção, todos sabem que a violência policial e o assédio militar têm um impacto desproporcional sobre a comunidade LGBT. Isso nos machuca e eu não sei com quem mais contar para poder denunciar”, diz Chávez.
Até o momento, a equipe de Chávez registrou 68 incidentes de violência contra pessoas LGBTIQ+, embora acreditem que pode haver mais. Um dos principais desafios tem sido criar um banco de dados centralizado das informações que cada membro havia mantido por conta própria.
“Uma das grandes frustrações sempre foi que não temos consistência quando se trata de armazenar informações”, diz Chávez. “Para fazer esse banco de dados, tive que ir de computador em computador, coletando informações em e-mails e arquivos soltos.”
Chávez, doutoranda em Estudos Americanos e arquivista, aplicou seu conhecimento para compilar e organizar as informações. Para ela, é crucial proteger as bases de dados que contêm informações sensíveis relacionadas às alegações das vítimas sob o regime de emergência. Uma das chaves é proteger os dados com múltiplas camadas de segurança e usar plataformas criptografadas com funções de autodestruição automática, como CryptPad.
A escalada autoritária em El Salvador forçou as organizações a serem mais cautelosas em seu trabalho público. Por essa razão, Chávez solicitou que sua organização não fosse mencionada por medo de represálias após a recente aprovação da Lei de Agentes Estrangeiros, que exige que aqueles que recebem fundos internacionais se registrem como “agentes estrangeiros.” Se autorizado, eles estariam sujeitos a uma taxa de 30% sobre todos os fundos estrangeiros, uma medida que os opositores da legislação afirmam que busca sufocar economicamente as vozes dissidentes.
A situação política em El Salvador os forçou a contemplar vários cenários sobre como proteger informações. O mais crítico implica que o governo pode considerar as atividades da organização como uma violação direta da lei e invadir seus escritórios. Outra preocupação é que, no momento do registro, serão obrigados a entregar o conteúdo dos dispositivos.
“O registro é projetado como uma entidade onipotente. Existem requisitos mínimos para se registrar, mas eles têm o poder de exigir o que quiserem”, diz Chávez. “Não há limites nas regulamentações sobre o que podem solicitar. O que nos preocupa é que, como parte de um processo rotineiro, queiram apreender computadores, discos rígidos, etc.”
A promulgação dessa lei para controlar a fala e a informação não é um caso isolado. Em novembro de 2024, o Congresso de El Salvador aprovou leis que estabelecem a criação da Agência de Cibersegurança do Estado, cujos poderes incluem gerenciar ameaças cibernéticas e supervisionar a conformidade com a proteção de dados.
“O governo de El Salvador criou uma infraestrutura inteira para ter não apenas controle social, mas também digital sobre a cidadania. Com a criação dessa agência, uma ferramenta de supervisão é habilitada para questões relacionadas à informação, ao uso da tecnologia e à nossa identidade digital”, explica Joshi Leban, especialista em defesa e alfabetização digital.
Os registros que Chávez está tão cuidadosamente guardando também têm uma visão em que essa esperança de justiça persiste.
“Em algum momento, talvez isso se torne uma litigação internacional, ou pode ser que esse governo acabe e um processo de supervisão do que aconteceu comece. Nesse cenário, servirá que as organizações tenham colocado esses fatos em registro como documentação.
